sexta-feira, 21 de maio de 2010

Florbela Espanca - trocando olhares

"É so teu o meu livro; guarda-o bem;
Nele florece o nosso casto amor
Nascido nesse dia em que o destino
Uniu o teu olhar à minha dor!"

"Saudades e amarguras
Tenho eu todos os dias,
Não podem pois adejar
Em meus versos, alegrias.

Saudades e amarguras
Tenho eu todas as horas,
Quem noites só conheceu,
Não pode cantar auroras.

Se é pecado sonhar
Tenho um pecado na vida
Peço a Deus por tal pecado
A penitência merecida.

Quando o meu sonho morrer
(Que penitência tão dura!)
Vai encontrar em teu peito
Carinhosa sepultura.

Onde estas ó meu amor,
Que não te vejo apar'cer?
Para que quero eu os olhos
Se não servem pra te ver?

Que m'importa a luz suave
Dos olhos que o mundo tem?
Não posso ver osa teus olhos
Não quero ver os de ninguém.

Tens um coração de pedra
Dentro de um peito de lama
Pois nem sabes distinguir
Quem te odeia de quem te ama.

Por uma que te despreza,
teu coração endoidece.
E a pobre que te quer bem,
Só seus desprezos merece.

Desde que meu bem partiu
Parecem outras as cousas;
Até as pedras na rua
Têm aspectos de lousas!

Quando por acaso as piso;
Pertuba-me um tal mistério!...
Como se pisasse à noite
As pedras de um cemitério.

Teus olhos tem uma cor
Duma expressãotão divina,
Tão misteriosa, tão triste,
Como foi a minha sina.

É uma expressão de saudade
Vogando num mar incerto.
Parecem negros de longe,
Parecem azuis de perto.

Mas nem negros nem azuis
São teus olhos, meu amor,
Seriam da cor da mágoa,
se a mágoa tivesse cor.

...

Coveiros, sombrios, desgrenhados,
Fazei-me depressa a cova,
Quero enterrar a minha dor
Quero enterrar-me assim nova.

Coveiros, só o corpo é novo,
Que há poucos anos nasceu;
Fazei-me depressa a cova
Que a minha alma morreu.

Amar a quem nos despreza
É sina que a gente tem;
Eu desprezo quem m'odeia,
E adoro quem me quer bem.

Ai, tirem-me o coração
Que o tenho todo desfeito!
Cada pedaço um punhal
Que trago dentro do peito.

...

Esmaguei meu coração
Para o triste te esquecer;
Mas ao sentir seus passos,
Põe-se a bater,... a bater...

...

Há sonhos que ao enterra-se
Levam dentro do caixão,
Bocados da nossa alma,
Pedaços do coração!"

domingo, 16 de agosto de 2009

Fernando Pessoa

"Navigare necesse; vivere non est necesse" - frase de Pompeu
Basta pensar em sentir
"Basta pensar em sentir
Para sentir em pensar.
Meu coração faz sorrir
Meu coração a chorar.
Depois de parar de andar,
Depois de ficar e ir,
Hei de ser quem vai chegar
Para ser quem quer partir.
Viver é não conseguir. "


Eu
"SOU LOUCO e tenho por memória
Uma longínqua e infiel lembrança
De qualquer dita transitória
Que sonhei ter quando criança.

Depois, malograda trajetória
Do meu destino sem esperança,
Perdi, na névoa da noite inglória,
O saber e o ousar da aliança.

Só guardo como um anel pobre
Que a todo herdeiro só faz rico
Um frio perdido que me cobre

Como um céu dossel de mendigo,
Na curva inútil em que fico
Da estrada certa que não sigo. "

Há uma música do povo!
"Há uma música do povo,
Nem sei dizer se é um fado
Que ouvindo-a há um ritmo novo
No ser que tenho guardado...

Ouvindo-a sou quem seria
Se desejar fosse ser...
É uma simples melodia
Das que se aprendem a viver...

E ouço-a embalado e sozinho...
É isso mesmo que eu quis ...
Perdi a fé e o caminho...
Quem não fui é que é feliz.

Mas é tão consoladora
A vaga e triste canção ...
Que a minha alma já não chora
Nem eu tenho coração ...

Sou uma emoção estrangeira,
Um erro de sonho ido...
Canto de qualquer maneira
E acabo com um sentido! "

sábado, 15 de agosto de 2009

Alberto Caeiro

"Pensar é estar doente dos olhos."

Ah! querem luz
"Ah! querem uma luz melhor que a do Sol!
Querem prados mais verdes do que estes!
Querem flores mais belas do que estas que vejo!
A mim este Sol, estes prados, estas flores contentam-me.
Mas, se acaso me descontentam,
O que quero é um sol mais sol que o Sol,
O que quero é prados mais prados que estes prados,
O que quero é flores mais estas flores que estas flores —
Tudo mais ideal do que é do mesmo modo e da mesma maneira!"


Creio
Creio que irei morrer.
Mas o sentido de morrer não me move,
Lembro-me que morrer não deve ter sentido.
Isto de viver e morrer são classificações como as das plantas.
Que folhas ou que flores têm uma classificação?
Que vida tem a vida ou que morte a morte?
Tudo são termos onde se define.
(?) [Um verso ilegível e incompleto. "

Falas de civilização
"Falas de civilização, e de não dever ser,
Ou de não dever ser assim.
Dizes que todos sofrem, ou a maioria de todos,
Com as cousas humanas postas desta maneira.
Dizes que se fossem diferentes, sofreriam menos.
Dizes que se fossem como tu queres, seria melhor.
Escuto sem te ouvir.
Para que te quereria eu ouvir?
Ouvindo-te nada ficaria sabendo.
Se as cousas fossem diferentes, seriam diferentes: eis tudo.
Se as cousas fossem como tu queres, seriam só como tu queres.
Ai de ti e de todos que levam a vida
A querer inventar a máquina de fazer felicidade! "

Novas Poesias inéditas
"Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que sogue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo : "Fui eu ?"
Deus sabe, porque o escreveu."